quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Sobre pais e slings

Em muitas culturas, o papel do pai em relação aos filhos ficava restrito à segurança e manutenção material do lar. Isso vem sendo gradualmente modificado, e uma maior participação vem sendo desejada tanto pelos homens como pelas mulheres e, principalmente, pelas crianças, as maiores beneficiadas com essas mudanças. Porém, ainda não são muitos os homens que se dispõem a ter determinado tipo de cuidado com seus filhos. Assim, tivemos a idéia de discutir um pouco o uso dos carregadores de bebê, quando feito pelos pais. Aqui em casa, quem primeiro “perdeu o medo” do sling fui eu, Leonardo. Como após o parto Mariana ficou um pouco debilitada e nós não tivemos suporte familiar constante, fiquei encarregado de cozinhar para a família, além de trocar fralda e dar banho em Antonio. Assim que chegamos da maternidade, montei logo o sling. Ao contrário do que acontece em muitas famílias, aqui em casa quem tinha receio de usar o sling era a mãe. Por isso, eu fui o primeiro e principal usuário.

Lembro que uma das coisas que gostava de fazer era pôr meu filho no sling, com menos de um mês, e ir ao supermercado (normalmente, tarde da noite, para evitar multidões). Antonio ficava todo cobertinho e as pessoas não esperavam que aquela “bolsa” tivesse um bebê dentro, e às vezes esbarravam em mim. Mariana gostava de brincar, dizendo que eu parecia estar grávido, e na verdade eu tinha realmente muito cuidado para não esbarrar em nada com a minha “barriga postiça”. Depois Antonio foi crescendo, e cada posição foi se tornando uma descoberta diferente.
Quando ele já tinha alguns meses, começamos a fabricar nossos próprios slings e então eu pude criar peças específicas para mim, de acordo com meu gosto. Sempre temos pelo menos umas cinco peças em uso, reunindo as minhas e as da mãe. Prefiro usar cores mais vivas, estampas mais adultas. Não gosto de bolsos de bichinhos, coisinhas infantis; meus slings sempre combinam com meu jeito de vestir.

Lendo Ashley Montagu, que escreveu um livro maravilhoso chamado Tocar: o significado humano da pele, reforçamos nosso sentimento de como é importante carregar no colo e proteger nossos bebês. Ele trata de como é essencial para a criança ter sensações variadas, contato com diversos tipos de pele, cheiros, vozes e ritmos distintos, e maneiras diferentes de ser carregada. Creio que para o pai, a experiência de ter seu filho por perto é igualmente rica. Graças a isso, pude aprender quando meu filho chora de fome, sono ou dor e pude ser capaz de interagir cada vez melhor com ele. Quando vejo uma mãe/cliente que chega e diz que comprará um sling “apenas para ela, pois o marido não vai usar”, lamento profundamente a perda que esse pai está causando a si mesmo e ao bebê.
Atualmente, sou o responsável pela maior parte das vendas “ao vivo”, pois Mariana é professora numa cidade distante 250km de Recife e acaba ficando ausente durante várias tardes e noites. Dividimos as tarefas e ela acabou ficando responsável principalmente pela divulgação do produto, pela manutenção do site e pelo atendimento às clientes pela internet, mas grande parte das visitas é feita por mim. Muitas mães se surpreendem com o fato de “um homem” estar vendendo slings. Muitos pais olham desconfiados, especialmente aqueles que não têm interesse em saber como “esse pano” funciona e acompanham suas mulheres de modo passivo, simplesmente porque elas viram o sling numa matéria de televisão ou coisa parecida. Confesso que às vezes é um problema difícil de contornar. No começo, as pessoas só queriam tratar com ela, como se eu não fosse capaz de entender do assunto. Mas, depois que se quebra a barreira, as mulheres adoram ver que “mesmo um homem” é capaz de usar um sling com sucesso. E os homens gostam de ver que “o pano” não diminui a masculinidade de ninguém... E hoje, Mariana até reclama, pois às vezes vai atender aos telefonemas das clientes e as que começaram a ser atendidas comigo, não querem mais falar com ela!

Quando construímos este sítio, fizemos questão de incluir várias fotos minhas e de alguns clientes usando o sling, justamente para fortalecer a idéia de que homem pode e deve usar. Especialmente quando o bebê usuário é menina, insistimos que as mães escolham peças mais neutras, ou então que comprem mais de um sling: gostamos de frisar que lilás com borboletinhas não é a escolha mais adequada quando se quer que o pai carregue o bebê – coisa que fatalmente acaba acontecendo, especialmente quando a criança cresce e fica mais pesada. Procuramos mostrar que o sling deve ser uma decisão conjunta, especialmente quando se compra uma única peça para uso familiar/compartilhado.
Torcemos muito para que as mudanças prossigam, e que as pessoas fiquem menos chocadas/curiosas quando virem um papai slingando com seu filhote (eu sou apontado abertamente, quando vou com Antonio passear). Quem sabe, quando Antonio for papai, o sling será um acessório corriqueiro e utilizado por homens e mulheres, para a alegria dos bebês.


Abraço a tod@s, e feliz ano novo!

3 comentários:

Anônimo disse...

Hoje passei meu sling do Glorioso!

Estou ansioso para estreá-lo com Bruninho.

André Costa
(que comprou um Sling rubro-negro e bordou um escudo do Sport)

Mariana Mesquita disse...

E nós estamos ansiosos pra conhecer o pequeno! Beijos, feliz 2009!

Dione disse...

Mari, o maridão tá arrasando no Casulinho!!!
Fanástico este seu texto de fim de ano, Léo!
Beijão